Não sei bem como nem porquê, mas às vezes assalta-me esta estúpida sensação de te amar pouco. Naqueles dias, naquelas horas em que até o ar nos pesa, naqueles dias, naquelas horas em que até o ar nos queima, nesses dias, nessas horas, por vezes, só às vezes, tenho medo de te amar pouco. Ou será medo de não te saber amar?
Não é sempre, percebes? Às vezes, descaio para o outro lado do espelho e acho até que te amo muito para além do que mereces. Outras vezes, fico deste lado e se prestar atenção, nos teus olhos que às vezes, é verdade, às vezes ficam mesmo mais escuros, nos teus olhos consigo ver que me amas. Depois, claro, vem o sol ou abres uma janela e os teus olhos voltam à cor normal. Mas às vezes é inequívoco que me amas.
Sempre me disseram que amor com amor se paga.
Por vezes estou deste lado do espelho. Daqui vejo-te outro. Vejo sem sombras o amante apaixonado. Ouço sem ecos as tuas declarações de amor. Deito-me contigo e na cama estamos só nós, sem passado nem futuro, sem mágoas nem promessas, sem medo nem coragem, apenas os corpos. Pele, carne, sangue. Suor, esperma, saliva. Tu e eu.
Deste lado do espelho só não és o meu príncipe encantado porque eu não sou princesa. Mas às vezes até podia ser. Deste lado do espelho estendes-me a mão para eu não cair do alto dos meus tacões de doze centímetros. Deste lado do espelho segredas-me os mais bonitos sonetos de amor e eu acredito em cada palavra que me dizes.
Daqui, deste lado, grito-te sem pruridos que te amo, que chegues depressa, que quero vir-me na tua boca, que te venhas na minha, que os meus dedos estão molhados à espera que te venhas lambuzar neles.
Deste lado abro os braços e rodopio. Ah, e navego e brinco à cabra-cega, como não?
Deste lado sou eu, ainda inteira.